sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Devaneios de uma garrafa de rum


      Normalmente, nem tudo corre como nós queremos. E porquê? Porque a vida tem uma mania filha da puta de se meter onde não é chamada. Imiscui-se em assuntos privados, brinca com sentimentos, usa o karma como quer e bem lhe apetece, e nós, como marionetas que somos deixamo-nos andar, porque, de verdade, a mudança está fora do nosso alcance.
      Ora, eu proponho um atentado à vida. Um ultimato, ou outra dessas técnicas político-sociais de extrema que ponha fim a esta ditadura. Sim, porque sem dúvida que nos encontramos numa ditadura. Como ditadora suprema e absoluta, a vida faz de nós o que quer, usa-nos a seu belo prazer, e não há revolução que nos salve. Cá para mim a coisa resolvia-se. Uníamo-nos e dizíamos à vida: Vai-te foder. Fazíamo-nos senhores de nós próprios e a vida seria nossa em vez de ser dos outros. Cada um de nós mandava no que seria seu, não havia sentimentos desperdiçados, coincidências maradas nem coisas do género. Seríamos todos robots, donos de nós próprios e do Mundo, sendo que seríamos nós a mandar, e não a vida.
      Mas perde o encanto, diz-se. Sem surpresas, sem alegrias súbitas e sem tristezas inesperadas, sem a possibilidade de surgirem do nada coisas boas ou más nas nossas vidas, a coisa perde o encanto. Deixa de haver magia no milagre da vida. E no da felicidade e na busca pela mesma.
      Por isso mesmo, deixemo-nos andar e culpemos a vida… Afinal, não é sempre muito mais fácil do que virar o alvo para nós? 

domingo, 1 de julho de 2012

Cântico Negro - José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Cântico Negro - José Régio

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Run for your life

Há coisas que não se explicam. Sentimentos, sensações, tão certos, tão errados, tão verdadeiros. Adorava poder chegar aqui, decidir escrever sobre isto ou aquilo, e fazê-lo. Mas não posso. Não consigo. A verdade é que as palavras são um escape. Não consigo usá-las para mais nada... Nada. Não consigo usá-las para dar concelhos, não consigo usá-las para dizer às pessoas o quanto gosto delas, não consigo usá-las para dar voz ao meu interior.
Não... As palavras em mim só saem quando não vejo mais nada à frente, quando a esperança se foi, quando chove. E hoje chove. E chove muito. Tempestade... Mais um pouco, aparecem relâmpagos. É sempre assim. Eventualmente, o São Pedro lá se lembra que tem que chover. Neste momento eu sou Braga, e chove constantemente. Apetece-me gritar ao mundo o quanto eu não presto, o quanto eu não sirvo para nada, mas até para isso sou cobarde. Foi nisso que me tornei. Tornei-me alguém cobarde, medricas. Deixei de acreditar, deixei de querer. Já nem me lembro da última vez que quis alguma coisa. Não me lembro de lutar, não me lembro... Há uns dias tentei lembrar-me do momento mais feliz da minha vida. Não me ocorreu nada. Achei que estava a ser estúpida e procurei, tentei lembrar-me. Continuou a não aparecer nada. Hoje percebo porquê... O problema é sempre o mesmo: nunca chega. Nunca nada me chega. Eu nunca chego para nada, podia fazer sempre melhor, podia dar sempre mais de mim, dos outros, podia ser sempre diferente.
E eu estou cansada... Quero sentir-me bem. Quero chegar. Quero chegar para mim e para os outros. Quero achar que mereço o bom que me pode acontecer, quero sentir-me bem. Quero sentir-me bem! Quero ser feliz!

Estou perdida. Perdi-me há muito tempo e agora não me sei encontrar. Sou mais uma neste mundo de coitados e afectados. Sim, porque somos todos uns coitadinhos. Uns pobres miseráveis a quem a vida castigou. Somos meninos, fracos psicologicamente. O nosso corpo não chega para carregar as nossas cruzes, e cada um de nós leva o seu mundinho nas costas, achando sempre que o nosso é maior do que os dos outros. Pobres de nós. Coitados de nós. Sim, porque eu sou igual, apesar de às vezes ter a presunção de me achar diferente. E isso torna-me tão igual. Tão banal. Tão pequena.

Hoje já me chega. Já tive a minha dose de ser minúscula. Já tive a minha dose de ser rebaixada, de me achar pequena e de não chegar, de não merecer.
Hoje, e desculpem a má educação, mando o mundo à merda. Se ele me manda sempre a mim, porque é que hoje não posso ser eu?