Há coisas que não se explicam. Sentimentos, sensações, tão certos, tão errados, tão verdadeiros. Adorava poder chegar aqui, decidir escrever sobre isto ou aquilo, e fazê-lo. Mas não posso. Não consigo. A verdade é que as palavras são um escape. Não consigo usá-las para mais nada... Nada. Não consigo usá-las para dar concelhos, não consigo usá-las para dizer às pessoas o quanto gosto delas, não consigo usá-las para dar voz ao meu interior.
Não... As palavras em mim só saem quando não vejo mais nada à frente, quando a esperança se foi, quando chove. E hoje chove. E chove muito. Tempestade... Mais um pouco, aparecem relâmpagos. É sempre assim. Eventualmente, o São Pedro lá se lembra que tem que chover. Neste momento eu sou Braga, e chove constantemente. Apetece-me gritar ao mundo o quanto eu não presto, o quanto eu não sirvo para nada, mas até para isso sou cobarde. Foi nisso que me tornei. Tornei-me alguém cobarde, medricas. Deixei de acreditar, deixei de querer. Já nem me lembro da última vez que quis alguma coisa. Não me lembro de lutar, não me lembro... Há uns dias tentei lembrar-me do momento mais feliz da minha vida. Não me ocorreu nada. Achei que estava a ser estúpida e procurei, tentei lembrar-me. Continuou a não aparecer nada. Hoje percebo porquê... O problema é sempre o mesmo: nunca chega. Nunca nada me chega. Eu nunca chego para nada, podia fazer sempre melhor, podia dar sempre mais de mim, dos outros, podia ser sempre diferente.
E eu estou cansada... Quero sentir-me bem. Quero chegar. Quero chegar para mim e para os outros. Quero achar que mereço o bom que me pode acontecer, quero sentir-me bem. Quero sentir-me bem! Quero ser feliz!
Estou perdida. Perdi-me há muito tempo e agora não me sei encontrar. Sou mais uma neste mundo de coitados e afectados. Sim, porque somos todos uns coitadinhos. Uns pobres miseráveis a quem a vida castigou. Somos meninos, fracos psicologicamente. O nosso corpo não chega para carregar as nossas cruzes, e cada um de nós leva o seu mundinho nas costas, achando sempre que o nosso é maior do que os dos outros. Pobres de nós. Coitados de nós. Sim, porque eu sou igual, apesar de às vezes ter a presunção de me achar diferente. E isso torna-me tão igual. Tão banal. Tão pequena.
Hoje já me chega. Já tive a minha dose de ser minúscula. Já tive a minha dose de ser rebaixada, de me achar pequena e de não chegar, de não merecer.
Hoje, e desculpem a má educação, mando o mundo à merda. Se ele me manda sempre a mim, porque é que hoje não posso ser eu?