segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cobardia

Odeio pessoas cobardes. A cobardia é um defeito tão atroz e destruidor que poucos o vêem. Odeio pessoas de tal maneira cobardes que, em vez de darem valor ao que têm, cobiçam o que não podem ter e mesmo assim têm medo de ir lá buscar. Pessoas que não vêem o próprio caminho por causa da cobardia. Pessoas que têm medo de arriscar. Que têm medo de fazer. Que têm medo de querer mais e perder.
Odeio pessoas que nunca estão contentes, que querem sempre mais. Pessoas tão cobardes que apesar de já terem tudo, continuam a não ver nada. Pessoas que têm medo do caminho mais difícil, e optam pelo mais fácil. Pessoas que optam por voltar atrás. Pessoas que não arriscam e depois ainda têm a lata de dizer que a vida não lhes deu nada. Pessoas que se queixam em vez de arranjarem tomates para mudar o que não está bem.

Uns coitados, todos. Grande sorte a minha, sou rodeada por pessoas assim! Pessoas que não dizem o que sentem, que escondem aquilo que querem e aquilo que são atrás do sorriso falso. Pessoas que até medo têm de se conhecer a si próprias. Pessoas tão cobardes que só de passarmos tempo com elas nos sentimos pequenos, miseráveis, inúteis.
Pior que tudo isto, é que a cobardia é um mal tão absoluto que nem se dá por ele. Começa num receiozinho, ouve-se o coro do "é normal" e vai-se andando assim. Quando damos por ela, estamos tão enterrados na nossa própria cobardia que nem coragem há para a combater.

Tenho saudades de pessoas corajosas. De forças da natureza. De pessoas que, mesmo tendo um muro à frente, espreitam para o seu próprio caminho pelas frinchas até conseguirem deitar o muro a baixo.
Sinto a falta de alguém que me olhe nos olhos e diga "Vamos!", sem certezas, sem pistas, e sem atalhos.

Ironicamente, lembrei-me agora de algo que me disseram há muito tempo atrás: Não se pode sentir a falta de algo que nunca se teve.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Adrenalina

Sempre me considerei uma pessoa entusiasta. Apreciadora das pequenas coisas. Lembro-me de sair de casa com um sorriso na cara desde pequenina, mesmo que as coisas estivessem mais que negras. Lembro-me de sair de casa de um amigo com 3h de sono, pronta para me dirigir a uma aula de filosofia, olhar-me no espelho da entrada, sorrir e dizer "Estou bonita, hoje!". Lembro-me de vezes em que ria por coisas tão estúpidas que nem as consigo explicar a quem não estava presente.
Lembro-me de viver para e pela adrenalina. Lembro-me de me rir sem razão aparente, lembro-me de começar a cantar no meio da rua, e lembro-me de ter gente à minha volta que me acompanhava. Lembro-me de fazer figuras absurdas à frente de multidões, e lembro-me de achar piada.

Agora cresci, dizem-me. Agora já não rio de mim mesma tantas vezes, já não recordo tantas vezes, já não sinto tantas vezes. Agora estou demasiado ocupada a pensar nos problemas, nas responsabilidades, nas obrigações. Agora chegou a altura de deixar de ser uma criança e passar a ser uma mulher. Uma mulher responsável, saudável, bonita, bem-sucedida, e mais umas tretas do género.

Hum... E se eu não quiser? E se eu quiser ser uma criança só por mais um bocadinho? E se que quiser continuar a rir-me em vez de chorar? Tenho saudades do meu optimismo! Tenho saudades de me olhar ao espelho e sorrir para mim mesma. Tenho saudades de subir uma escadaria, queixar-me o caminho todo por causa do treino do dia anterior e gozar comigo mesma no fim. Tenho saudades de cantar aos berros (ou tentar pelo menos), tenho saudades de brindar com iogurtes (ou o que quer que seja), tenho saudades de fazer apostas, de jogar às cartas, de comer gelado, de passar tardes a conhecer-me a mim mesma e aos outros. Tenho saudades de "javardar", no maior e melhor sentido da palavra.

Cansei de crescer, cansei de pensar. A preocupação só me mata aos bocadinhos, e sinceramente, o cabelo branco não me deve ficar assim tão bem como isso. Quero dançar outra vez como se fosse a última vez. E quero olhar para a frente e ver quem alinhe nisso comigo...

Who's in?


domingo, 23 de janeiro de 2011

ELOGIO AO AMOR - Miguel Esteves Cardoso in Expresso.

"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.
Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.
O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


O texto não é meu, mas fala por si. :')

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Cala-te

Habituei-me a guardar as minhas opiniões para mim própria. Durante muitos anos disse o que pensava, mesmo sem me pedirem nada. Houve alturas em que falei demais, e comecei a tentar equilibrar as coisas... Nem falar demais, nem ser rebaixada, nem calar-me. Durante algum tempo a coisa até funcionou, e eu senti-me livre. As pessoas aprenderam a respeitar-me, eu aprendi a respeitá-las a elas, aprendi a ouvir e a ser ouvida. Pois agora essas pessoas foram-se. Foram-se, e com elas foi a minha capacidade de equilíbrio. Deixei de dizer o que pensava, deixei de defender as minhas ideias, a não ser que alguém me perguntasse directamente. Quantas vezes dou por mim a participar naquelas típicas discussões de café sobre a realidade actual, apenas com um sorriso sarcástico na cara e a pensar em muito mais do que deito cá para fora. Porquê? Porque não vale a pena. Convenço-me a mim própria que as pessoas não valem a pena, que as pessoas não ouvem. E não preciso de me convencer muito, as pessoas fazem isso por mim. Se me calei, não foi por acaso... Porquê falar com quem não me está a ouvir, e nem interessado está? Para quê acreditar que as pessoas têm o chamado "lado bom" e estarão lá para mim, se até eu não estou lá para elas às vezes?
Devo acreditar que as coisas vão melhorar, que os meus amigos vão estar sempre lá para mim, que as pessoas que marcam a minha vida actualmente vão continuar a marcá-la e que daqui a uma dúzia de anos não vou passar por elas na rua e ter uma conversa de circunstância de 5 longos minutos da qual saio envergonhada? Devia ser positiva, devia acreditar, devia ter fé? Repito, que ironia.

O engraçado é que eu sou positiva, eu acredito, e também tenho fé. Tenho isso tudo, e tenho ainda mais. Acredito sim, mas em mim e em mais ninguém. Habituei-me a guardar as minhas opiniões para mim própria, mas não sei até que ponto o continuarei a fazer.

Tinhas alguma coisa a dizer?... Cala-te, hoje falo eu.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Medo

Há muito tempo que queria escrever sobre o medo. Nunca pensei que o fizesse em primeira mão.

Nunca tive medo. Às vezes um nervoso agudo, um pequeno receio. Mas medo? MEDO? Não, nunca me tinha acontecido. Diria eu que medo, numa definição bastante literal, se sente quando se tem algo de que se gosta de tal maneira que não se quer perder. Ok, até aí tudo bem. Suponho que toda a gente, por muito miserável e infeliz que seja, tenha algo que não quer ver ausente. Em conclusão, o medo é um sentimento natural, resultante da vida humana, do quotidiano de qualquer um. É, portanto, um sentimento abstracto, mas que não tem assim tanto mistério. Cientificamente falando, até acho que o medo é um estímulo do cérebro, simples choques eléctricos que, numa visão geral do funcionamento humano, não são assim tão difíceis de perceber.

Concluindo, ter medo é normal. Sim, é esta a palavra que se usa: Normal. Bem… Até pode ser normal, mas recuso-me a pensar que ter MEDO é algo que me é imanente. Medo? No sentido de pânico? Pânico de tal maneira asfixiante que me faz dormir inquieta, e acordar sobressaltada vezes e vezes sem conta? Normal? Medo, pânico tão abrangente que nem lhe consigo dar razão? Que nem lhe consigo atribuir um objecto, um conteúdo?
Normal, repetem-me. Que é normal, que acontece a todos, que não me preocupe, afinal ter medo até é uma coisa boa, não é? Quer dizer que se tem algo por que ter medo, certo? Pois… Então é suposto eu ficar feliz? É suposto eu ver o lado positivo e não me preocupar em demasia? Que ironia ser eu a ouvir a lengalenga do “Sê positiva, acredita em ti. É normal, é só uma fase!”… O caralho é que é só uma fase.

Chama-lhe mania do protagonismo, mas não é merda de fase nenhuma. Não é normal e não é, de certeza, razão para ficar contente. MEDO? Escrevi a verdade quando referi em cima que nunca me tinha acontecido. Por isso não vou ficar feliz. Não vou dizer que é normal para conseguir viver comigo mesma, e achar que não sou mais que os outros. Se tiver que ser mais que os outros para lutar contra o medo, então que assim seja. Ele tolda a vista, põe-se à frente dos meus olhos (e de todos os outros), e impede-os de ver mais e mais longe. O medo é opaco e põe-se no meu caminho. E estão à espera que o deixe estar? Estão à espera que o deixe sentar-se, acomodar-se, talvez até morar comigo? É melhor esperar sentado então. O medo é como aqueles convidados indesejados que nunca ninguém diz para ir embora para não parecer mal, para não se ser diferente.

Eu? Eu recuso-me a deixar que o medo veja sequer a porta de entrada. Ele que se aproxime, que vê o pontapé que eu lhe dou… Ele que tente.


Em último caso, solto os cães ;)

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sozinha.

Queria fazer uma chamada. O meu orgulho não deixa, e por isso vingo-me nas teclas. Queria parar de chorar, queria conseguir escrever uma frase seguida sem olhar para mim como o "fundo da cadeia alimentar". Queria parar de sonhar à noite, queria deixar de acordar sobressaltada e sozinha. Queria dizer que está tudo bem e senti-lo. Queria sorrir mais vezes e queria não me sentir ridícula. Queria encontrar-me, queria não ter dúvidas outra vez.

Chama-lhe crise de identidade, chama-lhe o que quiseres, Chama-lhe estupidez, chama-lhe falta de coragem, chama-lhe criancice. Chama-lhe o que quiseres e não terás chamado mais do que eu. À noite o medo sufoca-me e não me deixa dormir. Faz-me sonhar com o que nunca quis, com o que não quero. Faz-me tomar atitudes que não são minhas nem nunca foram. Faz-me sentir fora de mim, faz-me sentir desesperada só por um abraço, ou um sorriso. Não quero ter de negar o que sinto, não mais. Mas não quero sentir o que sempre senti, desde a primeira vez que as lágrimas correram em público. Será assim tão ridículo ser uma pessoa triste? Será que nunca  vou encontrar alguém que compreenda isso? Será que haverá algum dia em que eu conseguirei viver comigo mesma? 

Chama-lhe ridículo, chama-lhe piegas. Piegas e ridículo és tu.